sexta-feira, abril 22, 2005

Mudar de poiso

Mudei para a www.margem_direita.blogspot.com

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Bravo Povo Iraquiano

Foi comovente ver o povo iraquiano em longas filas à espera de votar.

Faço votos para que o processo de estabilização do país continue.
- Com um acordo em prol do Iraque das várias forças políticas e altos dignatários, nomeadamente o Ayatollah Al-Sistani.
- Com uma Assembleia Nacional Constituinte que garanta os direitos de todos os iraquianos, nomeadamente das minorias (sunita, curda, turcomena ou cristã).
- Com a criação de um governo de unidade nacional onde participem xiitas, curdos e sunitas de diversos matizes.
- Com a progressiva autonomia e força das forças de segurança e miltares do país e a progressiva retirada das forças armadas da coligação.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Karol Wojtila

O Papa engripou-se, o que na sua idade (84 anos) e dada a sua debilidade física decorrente da doença de Parkingson, pode tornar-se num estado inspirador dos maiores cuidados.

O mundo católico, e não só, está com João Paulo II nesta difícil hora, rezando a Deus para que se restabeleça e retome a sua missão enquanto descendente de Pedro.

A força interior do Santo Padre é imensa e por certo será factor determinante na superação da doença.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Diogo Freitas do Amaral

Finalmente Freitas do Amaral foi coerente com as indicações políticas que tinha dado desde que abandonou a Presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas.

A sua passagem pela ONU e pelas referidas funções deram-lhe um ímpeto terceiro-mundista de aproximação ao Mundo Árabe e defesa das causas tão apreciadas pela corrente anti-globalização da Internacional Socialista que frequenta assiduamente as organizações desse tipo.

Espero só que as despesas que incorreu nas presidenciais de 1986 estejam já saldadas. Um homem é ele as suas circunstâncias como referiu Ortega y Gasset.

Eleições Iraquianas

Ângelo Correia, eleito em comentador televisivo, destacou o facto de a presença significativa dos iraquianos no acto eleitoral se dever à presença massiva de xiitas e curdos.

Quanto aos xiitas referiu que a "coacção" religiosa do Ayatollah al-Sistani (via "fatwa" consagrada ao dever de votar) teria tido um efeito impressivo.

A dita "coacção" religiosa, que aliás é comum no ocidente nas diversas correntes do Cristianismo - por exemplo, em certas correntes do Protestantismo apelando ao voto em Bush, no padres católicos apelando ao voto contra o comunismo em Portugal no pós-PREC ou nos apóstolos da teologia da libertação da América Latina, contestando as ditaduras militares e apoiando as oposições em eleições - só por maldade se pode considerar coacção, ainda mais quando estamos em presença de ameaças de atentados terroristas contra os eleitores, visando o boicote das eleições.

Ângelo Correia quanto a isso não teve nada a declarar, na sua visão independente do que se passa no Médio Oriente.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Saneamento das Finanças Públicas

Mais uma vez Francisco Saarsfiel Cabral se debruça sobre um tema interessante.
ENTENDIMENTOS
"O Presidente da República disse estar disponível para, depois das eleições, promover um entendimento entre os principais partidos visando sanear as finanças públicas. J. Sampaio já tentou esse consenso no passado, sem êxito. Mas, perante a persistência do desequilíbrio das contas do Estado, multiplicam-se os apelos para um acordo sobre alguns pontos fundamentais para se conseguirem resultados nesta matéria - sem os quais não se inverterá o declínio económico em que nos encontramos. Não se trata de voltar ao Bloco Central, nem de pactos de regime, mas de um entendimento circunscrito às finanças públicas (como o que existe, informalmente, sobre a UE), ultrapassando os quatro anos de uma legislatura normal. É que quatro anos não chegam para endireitar as contas do Estado.Com uma condição «há que ter a coragem para tomar medidas difíceis», nas palavras do Presidente. Não vale a pena promover entendimentos que não sejam para isso - seria um engano. Ora não se vê qualquer sinal de que os principais partidos estejam dispostos a medidas impopulares. Não faltarão solenes declarações de intenção. Mas, em concreto, é a irresponsabilidade que se anuncia. Do lado do PSD, já foi decretado o fim da austeridade e volta a falar-se em baixar impostos; do lado do PS, pretende-se manter auto-estradas sem portagem e dar subsídios e benefícios fiscais a meio mundo. «Esta gente está absolutamente convencida de que o limite às despesas públicas é uma conspiração de Bruxelas e dos macroeconomistas. Não descobriram ainda que o sistema está esgotado e que começa a faltar o dinheiro para encher os sacos azuis.» Se esta afirmação de Saldanha Sanches no último Expresso se confirmar - e receio bem que sim - não haverá entendimentos partidários sobre finanças públicas que nos valham."

Sobre o seu artigo teci o seguinte comentário:

Estou de acordo consigo quando diz que é necessário um entendimento entre os partidos de governo (PS, PSD-CDS) quanto ao saneamento das finanças públicas.

Mas esse entendimento terá que ser necessariamente geral. Isto é, deveria assentar sobre os seguintes pontos gerais:
-Respeito pelo cumprimento do pacto de estabilidade e crescimento como meta
-Acordo sobre o não aumento dos efectivos da função pública e sobre a politica de aumentos salariais – indexada à taxa de inflação.
-Plano plurianual para a redução faseada da dívida pública com metas anuais.
Mais profundo que isto parece-me difícil já que as estratégias dos 2 blocos políticos face ao sector público e consequentes finanças públicas são diferentes.

Vou ainda mais longe, apenas seria possível ir mais fundo, se o PSD se desligasse do CDS e da sua ala mais liberal, tornando-se num partido de centro esquerda.

Porque é que as estratégias são diferentes?

O PS poderia ter como estratégia conseguir o equilíbrio das finanças públicas:
- Mantendo a saúde no sector público – fala-se da passagem dos hospitais SA a EP e do fim das PPP, além dos 2 já em andamento Braga e Loures.
- Mantendo uma lógica de financiamento público (pelos impostos) dos serviços – SCUT vamos ver o que fará relativamente, por exemplo, às propinas ou ao financiamento da RTP e transportes públicos.
- Mantendo o emprego pelo sector público, não reduzindo os funcionários.
- Aumentando os impostos – fala-se do IVA, mas, por exemplo, sobre fortunas ou empresas.
- Combatendo a fraude e evasão fiscal, abraçando a ideia do Bloco de Esquerda de que um combate eficaz às mesmas dará origem a contas públicas equilibradas.
- Gerindo rigorosamente os dinheiros públicos na despesa e no investimento.
O caminho para a consolidação orçamental, far-se-ia fundamentalmente pelo aumento da receita e pela obtenção de um equilíbrio a nível mais alto.

O PSD-CDS poderia ter como estratégia conseguir o equilíbrio das finanças públicas:
- Passando parte do sector público para a esfera privada, nomeadamente na saúde – quer em nº de trabalhadores, quer em encargos (despesa).
- Favorecendo uma lógica de financiamento de utilizador-pagador – SCUT, hospitais serviços não básicos, transportes, ensino, Justiça, etc.
- Reduzindo a carga fiscal se não sacrificasse o equilíbrio orçamental – IRS, IRC.
- Combatendo a fraude e evasão fiscal de modo a tornar o sistema mais justo, mas sem ilusões sobre a sua cobertura das despesas excedentárias ser claramente insuficiente.
- Gerindo rigorosamente os dinheiros públicos na despesa e no investimento.
O caminho para a consolidação orçamental, far-se-ia fundamentalmente pela redução da despesa e pela obtenção de um equilíbrio a nível mais baixo.


A consolidação orçamental para além da real vontade dos dois blocos políticos que podem ser governo – que como se sabe está por vezes dependente de lógicas eleitorais, de compromissos vários (autárquicos, corporativos, pessoal político, etc) ou mesmo de uma gestão ineficiente – está ligada a dois condicionalismos externos muito fortes.

O peso do Estado na vida portuguesa. O Estado pela tradição cultural portuguesa é o centro da sociedade, a sociedade civil é dominada e vive bastas vezes à custa do Estado.
É de referir o peso dos funcionários públicos (780 mil) na população activa, o valor da riqueza nacional canalizada para o sector público. E igualmente, que, para além dos sectores essencialmente públicos - saúde, educação, justiça - também os transportes são basicamente públicos, as telecomunicações e comunicação social são dominadas pelo grupo PT, a energia é controlada pelo Estado, a Banca, que tem tido uma lógica de cartel e no qual a CGD serve de líder, os seguros – agora com a venda da Seguros e Pensões à CGD – seguem pelo mesmo caminho.
Uma grande parte dos outros sectores estão estado-dependentes, quer na carteira de clientes como a construção civil, quer nas condições à exploração – apoios à exportação, custos da energia, assegurar da concorrência, etc.
Este peso é tradicionalmente conservador, isto é avesso à mudança.

O peso da legislação e ventos da UE. A UE tende a retirar ao Estado poder e economia, obriga-o a ser mais eficiente e pelo PEC obrigá-lo-á a ser mais pequeno. A tendência dos países mais desenvolvidos, com excepção de alguma relutância mas no mesmo sentido da França, tem sido a redução acentuada do sector Estado, quer a nível empresarial, quer a nível prestador de serviços directo, aumentando as suas competências nas áreas controladoras e fiscalizadoras.
Por outro lado, a transferência de competências para a União, o assegurar de condições de concorrência e a harmonização mesmo que parcial da fiscalidade, levará a que cada vez seja menos possível manter a lógica do nosso peso Estatal.

Percebe-se que os governos, sem opções na política cambial, sem interferência na taxa de juro, sem opções de barreiras alfandegárias ao comércio intra-UE, queiram ter na política orçamental e na política fiscal algo a dizer para bem dos seus eleitorados e das vitórias eleitorais.

Notas finais especificas:
A manutenção dos PPR, PPA, PPH, etc, (pelo PS) ou a sua remoção (pelo PSD-CDS) apenas é uma redistribuição da carga fiscal, pelo que é aceitável haver propostas diferentes. Daí que não ache que o PSD-CDS queiram diminuir os impostos no OGE 2005 apenas redistribuir em pequena escala a carga, como aliás Bagão Félix referiu.
A manutenção das SCUT (pelo PS) é uma estratégia de gestão pública.
O PSD referiu que acabava a austeridade, no sentido em que a recessão (diminuição do PIB ) tinha acabado. È uma expressão infeliz porque induz em erro a generalidade da população que não percebe a subtileza.
È possível estarmos em crescimento económico e com graves de problemas austeridade orçamental! A limitação de salários da função pública – impossível em 3 anos consecutivos segundo o insuspeito Vítor Constâncio – não é sinal de falta de austeridade. Mas é possível por exemplo aumentar os salários do sector privado, muito acima dos 2% para a FP, ou não colocar entraves ao Consumo ou Investimento privados (numa lógica de que a retoma está aí, embora mais lenta do que o previsto) e simultanemanente cortar e escolher bem os Gastos públicos (Despesas e Investimento).
É certo que o desiquilibrio da BTC tem que ser acompanhada, mas qual o peso da factura petrolífera? E qual o peso da reposição de stocks? No aumento das importações em 2004.















EUA e o Iraque

Leio sempre com muita atenção e interesse a coluna de Francisco Saarsfield Cabral no DN (Tentar perceber)

RUMSFELD
"A menos de um mês das eleições, prosseguem no Iraque os atentados e a insegurança. Quase dois anos depois da invasão, a situação no terreno permanece pouco propícia à instauração de um regime democrático. O secretário de Estado da Defesa, Donald Rumsfeld, é um dos principais responsáveis deste insucesso. No entanto, Bush manteve-o no Governo após as eleições, tendo mudado vários outros ministros. É que demitir Rumsfeld seria implicitamente admitir que o próprio Presidente se enganou. E Bush não gosta de reconhecer erros. Rumsfeld orientou duas rápidas e brilhantes vitórias militares dos Estados Unidos, no Afeganistão e no Iraque. Mas falhou dramaticamente na capacidade de prever o que se passaria no Iraque depois de derrubado Saddam. Ora a estratégia militar não termina na vitória é essencial planear o pós-guerra. Isso não foi feito neste caso, o que é espantoso. Ou melhor: fizeram-se previsões irrealistas, baseadas em falsas informações passadas por burlões como Chalabi, em quem o Pentágono confiou. Os próprios militares americanos criticam Rumsfeld por não enviar mais tropas para o Iraque, uma necessidade tanto maior quanto os americanos cometeram o erro fatal de acabarem com as forças armadas e policiais do antigo regime iraquiano. E Rumsfeld permitiu, se não mesmo aconselhou, a tortura de prisioneiros. Não foram casos isolados. Ficou assim de rastos a já fraca legitimidade moral da ocupação do Iraque, aumentando o ódio aos americanos no mundo muçulmano. Um presente para os terroristas. Os próprios senadores republicanos começam a ficar fartos de Rumsfeld. Mas ele não sairá antes das eleições no Iraque. Entretanto, sobe a factura de descrédito que os EUA e o Ocidente terão de pagar por causa da teimosia tonta deste homem e de Bush que o apoia."

O artigo ofereceu-me os seguintes comentários
.

As afirmações principais são:

1. A situação no Iraque é pouco propícia à instalação de um regime democrático, dois anos depois da invasão. Os EUA registam um insucesso, do qual Rumsfeld é um dos principais responsáveis.
2. Rumsfeld, mesmo tendo vencido brilhantemente o conflito militar no Afeganistão e no Iraque, falhou na capacidade de prever o pós-guerra no Iraque, nomeadamente no seu planeamento e na insuficiência de tropas americanas no terreno.
3. Á falta de planeamento, juntaram-se o desmembramento do exército iraquiano e os casos de tortura de prisioneiros aumentando o ódio aos EUA e diminuindo a fraca legitimidade moral da invasão.


A situação no Iraque é pouco propícia à instalação de um regime democrático!
É tema de controvérsia política o saber:
-Se é possível fazer engenharia política no sentido de transformar um regime ditatorial e sem raízes culturais próprias às democracias existentes, numa democracia.
- Se, a ser possível, isso não é necessariamente verdade para todos os casos – que condições é necessário preencher para ser possível.
- Se essa alteração, a poder ser feita, apenas possa ter reflexos se a força transformadora for essencialmente interna.
- Se, no caso concreto do Iraque, quais as várias situações que se poderiam aplicar.
Dando um exemplo ilustrativo, mas que não prova nada, a Turquia de Kemal Ataturk era um regime ditatorial num país muçulmano sem qualquer tradição democrática e sob influência interna do próprio ditador durante 25 anos encaminhou-se para um regime democrático.

Assim, independentemente de qual a posição sobre a controvérsia política exposta, é ponto assente que é impossível instalar em 2 anos um regime democrático – afinal a Turquia pós 1947 também teve um caminho para a democracia que ainda está a ter passados quase 60 anos!

É claro que outra coisa é considerar-se que a situação actual é inadequada à realização de eleições a que se possam chamar livres.
Por outro lado, no Afeganistão, como no Iraque a realização de eleições consideradas livres pela comunidade internacional (ONU, observadores da UE e dos EUA, etc) não é condição suficiente para considerar o país uma democracia. É o primeiro passo de um longo caminho que até poderá não terminar bem.

Francamente não tenho elementos que me possam ser úteis à formação de uma opinião sobre se é possível ou não a realização de eleições.

Subjacente à ideia da inadequação da realização de eleições está a análise que se faz sobre a situação no terreno, considerando que os constantes ataques terroristas às forças da autoridade iraquianas e ao exército americano, essencialmente, representam uma escalada da situação ou pelo menos uma manutenção de uma situação de grande instabilidade e logo um agravamento do conflito interno.

Pelos acontecimentos dos últimos meses, considero que o aumento de ataques terroristas tem tido como contrapartida um aumento de baixas e prisioneiros das forças rebeldes, tanto do terrorismo internacional, como das opositores armados sunitas, fiéis a Saddam Hussein.

É sabido que a invasão do Iraque concitou por parte da Al-Qaeda um concentrar de
esforços operacionais nessa região em detrimento doutras regiões do Médio Oriente.

Por outro lado, só muito ingenuamente se poderia antever um desaparecimento da oposição armada sunita, a qual foi em parte derrotada na guerra sem dar réplica.

A queda de bastiões rebeldes, como Fallujah, ou o inicio do julgamento de Saddam são também indicadores de que a intensificação do conflito não pode ter apenas uma leitura no sentido do retrocesso.

É certo que existe uma animosidade da população contra a presença americana, mas ela não se traduz, antes pelo contrário num apoio ás forças rebeldes (terroristas e sunitas).

As eleições vão num sentido da diminuição do poder da presença americana, e numa atribuição do poder à maioria da população (xiita) e essa situação é percebida pelos iraquianos – veja-se a moderação actual de Al-Sadr ou os ataques sunitas a altos dignatários religiosos xiitas.

É também natural, que as minorias curda e sunita queiram assegurar uma representatividade no futuro poder através de salvaguardas constitucionais, pelo que parte das forças politicas dessas minorias poderá optar pela negociação.

É muito cedo para fazer uma análise do processo político em 2 anos! Pode-se dizer com segurança, sim, que o pós-guerra foi muito mal planeado!

Mas a questão essencial é saber o que fazer daqui para a frente?
Devem-se realizar eleições já? Devem os americanos e as restantes forças internacionais sair do Iraque? Em que condições? Que ajudas deve prestar a comunidade internacional à reconstrução? Canalizadas porque instituições? Num plano ou dispersas?

Acho natural que se coloquem objecções à invasão (legitimidade ou oportunidade), aos seus resultados a curto prazo (estabilidade), fruto da falta de planeamento, ou até à possibilidade do Iraque poder ser democrático, algum dia. Mas essas questões são prévias e não são o essencial na situação actual.

Concordo inteiramente consigo, quando diz que não houve uma planificação adequada do pós-guerra e que as tropas americanas no terreno são insuficientes.

Quanto ao segundo ponto, porém, penso que os americanos na sequência da posição da ONU sobre a estabilização do Iraque no pós-guerra se convenceram que a comunidade internacional iria cooperar de forma mais importante enviando forças armadas ou policiais para a estabilização da situação, o que não se verificou, nomeadamente com a França, a Alemanha ou a Rússia. Depois disso os americanos estão a jogar essencialmente na realização de eleições, o que a par da formação do novo exército iraquiano lhes dará alguma margem para num período de 6 meses-1 ano poderem manter forças de menor dimensão.

Quanto ao desmembramento do exército iraquiano e das bases da administração afectas ao partido Baas, é um facto que ele provocou um vazio maior de poder e um aumento da instabilidade.

Mas esse corte radical era necessário ou não? Quando as instituições não são reformáveis e possam funcionar como contra-poder, o único caminho é substitui-las, mesmo com aumento dos custos da instabilidade ou vazio de poder.

A questão que se coloca é se essa situação se verificava ou foi um erro de cálculo?
Honestamente não tenho condições para ter uma opinião.

Já as torturas a prisioneiros são altamente condenáveis, sendo uma mancha grave na reputação americana.

Para quem condena a invasão, independentemente do motivo, ela é ilegítima. Para quem achou que a invasão se justificava, fica dependente dos resultados do processo iraquiano para saber se até que ponto teve sucesso, ou se se tratou apenas de uma
modificação de liderança política feita de forma brutal.

Mas, seja qual seja a situação, só por ingenuidade se pensará que os EUA poderiam sair com a aprovação ou agradecimento das populações locais. Tudo o que os americanos possam fazer não lhes trará prestígio mas apenas um aumento do ressentimento contra o Ocidente e em especial contra os EUA.

Mesmo se nas elites dirigentes de alguns países da zona, os EUA são encarados como aliados, em termos das populações existe uma relação de amor-ódio para com os “States”. Gostariam de ter acesso a tudo o que o “american way of life” proporciona, mas odeiam os EUA.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Mudança de Regime

A mudança do regime será um facto proximamente por pressão interna ou externa. Interna porque o regime político-jurídico-constitucional saído de 1976 é relativamente rígido(recorde-se que parte da Constituição foi feita em pleno PREC e os partidos foram manietados na sua redacção pelo prévio pacto MFA-Partidos e por outro lado, os limites formais e materiais à sua revisão impedem qualquer mudança substancial). Até agora não tinha havido grande confronto quanto à questão do sistema semi-presidencial (excepto no 2º mandato de Cavaco Silva)porque o Presidente sempre foi de esquerda - garante de que as coisas não poderiam mudar muito (guardião da Constituição e user do poder de veto) e porque o sentido das reformas imposto pela CEE-UE era o mesmo que as levadas a cabo pelos governos reformistas (aqueles que contavam com o PSD). Agora chegou-se à hora da verdade em que a Esquerda se sente pela primeira vez a perder o pé, daí:
- o reforço do presidencialismo pedido à esquerda - já se tinha manifestado no segunda maioria de Cavaco com os apelos à intervenção de Soares - porque de uma forma normal do nosso ordenamento jurídico-constitucional o PR não poderia impedir um sentido reformista contrário "às conquistas de Abril" e ao primado "cultural da esquerda" na nossa sociedade e media.
- o colocar-se pela primeira vez de forma clara desde 1980 a questão de uma maioria, um governo, um Presidente (à direita), já que não é possivel reformar o sistema de semi-presidencialismo para um sistema parlamentar. Aliás é curioso que o sistema mais próximo do nosso, na Europa, seja o francês.

Externamente, seria a mudança menos desejada já que implica a total, ou quase total perda de soberania para a UE. Mas além dos prejuízos que essa solução implica para a defesa dos interesses nacionais, obrigará inevitavelmente a fazer as reformas no sentido de uma economia de mercado tal como existe nos outros países europeus, provavelmente (helás) como satélite da Espanha.

domingo, dezembro 12, 2004

A Morte da Coligação



Escreveu na "Sábado" Constança Cunha e Sá sobre o tema que me mereceu a seguinte resposta:
Cara Sra D. Constança Cunha e Sá,

Encarei o seu artigo “A morte da coligação” como um exercício de “wishfull thinking”. Ou seja, não gostaria que eles fossem coligados às legislativas e, portanto, conclui da sua análise, que não irão coligados a votos.

Começa-o concedendo aos partidos da coligação a possibilidade de definirem a sua estratégia para as próximas legislativas embora sentenciando uma das opções (“Independentemente do que os dois partidos da maioria vierem a decidir...a coligação entre o PSD e o CDS morreu”.)

Para justificar a sua tese invoca o Congresso do PSD, onde se mostrou “o partido praticamente unido contra as listas conjuntas” (nas legislativas de 2006). Mas não é verdade que o Conselho Nacional desse partido deu a Santana Lopes carta branca para decidir sobre como o PSD se apresentará às próximas eleições de Fevereiro de 2005?
E também refere que “Mais do que um projecto nacional assente num programa de governo, o acordo entre os dois partidos nunca foi mais do que uma forma de garantir o poder e as benesses que daí advêm”. Mas vamos ser claros:
- Quando não há maioria absoluta numa Assembleia Legislativa saída de umas eleições, não é normal haver uma coligação entre partidos, ou pelo menos um acordo parlamentar, para assegurar essa maioria e viabilizar o governo de um país?
- E que na sequencia desse acordo se estabeleça um programa de governo comum aos partidos que o apoiam e que não deixará de ser um compromisso com os programas dos respectivos partidos?
- E que esse programa traçe as linhas de um projecto nacional daquele governo (não doutro, nem de um governo unanimista de salvação nacional) ? Realmente a palavra nacional neste contexto quer dizer o quê? Que não se concorda com o projecto?
- Considerar que os partidos que ganham as eleições têm como objectivo único (o objectivo – “nunca foi mais do que...”) garantir o poder e distribuir benesses sem fazer nada com ele (poder) é na hipótese mais benigna uma descrença na democracia (porque a imagina sem direita, sem este PSD e sem este CDS) e uma falta de atenção aquilo que os sucessivos governos têm feito.
- Os dois anos e meio do governo AD não mostraram um programa político a realizar-se? (reformas na saúde, na segurança social, nas leis laborais, no mercado imobiliário, na defesa e segurança, no financiamento das despesas públicas, etc)
É normal não se gostar de um governo, discordar-se das suas políticas e criticá-las com argumentação. Também é normal notar os abusos do poder que possam existir e benefícios indevidos que possam ser concedidos. Mas só posso entender como um excesso de paixão (pelo fim da coligação) este tipo de crítica.

Outro argumento que invoca mais do nível do semântico é o da natureza (como diria o seu amigo Vasco Pulido Valente “sejamos sérios”). A natureza de qualquer partido (excepto o PEV) é de concorrer isolado a eleições! Sim e daí? É por isso que não deve haver coligações? Aliás a invocação de “só uma lógica do puro desespero poderá levar os dois partidos a juntar-se numa mesma sigla” antes deste argumento leva-me a pensar que este argumento em si mesmo é a lógica do puro desespero.

Finalmente está preocupada com a sorte de Paulo Portas e Pedro Santana Lopes se enveredarem por esta decisão (da coligação). Eles realmente não saberão o que é melhor para eles...

A “hipotética bipolarização da campanha” que alude é mais do que provável. Aliás todo o clima emocional (e pouco racional) que a vida política nacional tem tido desde que Santana Lopes tomou posse – a que se juntou o “fait divers” das eleições americanas – até ao rocambolesco da dissolução futura da AR (Sampaio aderiu ao mercado de futuros) e o seu próprio artigo são testemunhos desse clima que favorece a bipolarização da campanha. Isso é sintomático pelas atitudes defensivas de PCP e Bloco de Esquerda que tentam lançar pontes ao PS, inseguros quanto ao que uma campanha bipolarizada pode fazer nos seus eleitorados fieis e pequenos.

“Pode ser que me engane, mas não vejo forma de...não se apresentarem sózinhos nas próximas eleições” (wishfull thinking no seu melhor até com uma dupla negativa!)

Desculpe-me se achou muito crítico o meu comentário, mas ele só foi possível porque leio sempre a sua coluna.

Cumpriementos
Luis Ferreira